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quarta-feira, 29 de julho de 2009

Resumo da Introdução de “Sobre a Pedagogia” (Immanuel Kant)



Quer seja enquanto infante, educando ou discípulo, o homem é a única criatura que precisa ser educada.
Isso não ocorre com os animais. Estes somente requerem nutrição, mas não cuidados, ou preocupações da parte dos pais quanto ao uso nocivo das forças de sua prole. Se, como acontece com os nossos bebês, os filhotes dos animais gritassem, ao nascer, seriam presas fáceis aos seus muitos predadores.
A animalidade se torna humanidade, através da disciplina. É através da disciplina que o homem é impedido de se desviar de sua destinação à humanidade, a despeito de suas evidentes inclinações animais.
Há uma razão exterior nos animais que os incita a serem tudo aquilo o que podem ser. O homem, sem instinto, mas provido de uma razão interna, precisa, no entanto, de outros seus semelhantes que o auxiliem na formação do projeto de sua conduta.
Desse modo, as qualidades naturais da humanidade são pouco a pouco extraídas da própria espécie humana; sendo, cada nova geração, educada pela anterior.
Como instrumento que auxilia a extirpação da selvageria no homem, a disciplina é a parte negativa da educação; já a instrução consiste na contraparte positiva, enquanto recurso formador e acrescentador de toda uma gama de herança cultural acumulada, preservada, transmitida, e aumentada, no decorrer dos séculos. Desta forma, da selvageria, o homem, enquanto espécie, é levado às leis da humanidade. E isto ocorre desde a infância, quando, no âmbito da interação com as regras básicas da escola, por exemplo, ele é levado a permanecer sentado, enquanto que o seu desejo imediato é o de se lançar ao movimento, indisciplinadamente; bem como a paulatina adequação à obediência, não ainda com o intuito de aprender, necessariamente, mas, decerto, dominar e restringir sua inclinação à liberdade. Como se pode verificar, no texto:
“Mas o homem é tão naturalmente inclinado à liberdade que, depois que se acostuma a ela por longo tempo, a ela tudo sacrifica. Ora, este é o motivo preciso, pelo qual é conveniente recorrer cedo à disciplina; pois, de outro modo, seria muito difícil mudar depois o homem”[1].

E, se assim não fosse, o homem sucumbiria a todos os seus caprichos. Portanto, desde cedo, é preciso acostumá-lo aos princípios da razão, através de cuidados e formação, ou, disciplina e instrução, diferentemente de como ocorre entre os animais.
De fato, não é possível o surgimento de um verdadeiro homem, senão através da educação. Aliás, o homem é aquilo que resulta desta última.
Quem é desprovido de cultura, certamente pode ser caracterizado como um bruto. Outrossim, na inexistência de disciplina ou educação, o homem não é nada além de um selvagem. Há de se reconhecer, ainda mais, que a falta de disciplina ainda é pior que a de cultura. Pois cultura é passível de ser adquirida, a partir de dado momento; enquanto que um defeito de disciplina é de difícil correção.
Todavia, é entusiasmante pensar que a natureza humana será sempre aprimorada, graças às lapidares diligências e aos maravilhosos frutos obtidos no contínuo e ascendente processo da educação. Desta forma, inegavelmente, abre-se uma perspectiva de felicidade para o futuro de toda espécie humana.
Mesmo que não o possamos realizar, tal projeto educativo, no mínimo, é um ideal demasiado nobre.
Sobremaneira, levando-se em conta que toda idéia não é senão a perfeição daquilo que ainda não se realizou; longe de ser tido como impossível, desde que haja a necessária autenticidade em sua enunciação, bem como a tenacidade suficiente para a ultrapassagem dos inevitáveis obstáculos do caminho; o referido projeto acima é mesmo possível e perfeitamente realizável.
Com as atuais feições do processo educativo, no entanto, encontramos muita inconveniência a inviabilizar qualquer projeto pedagógico que tenha como meta o atingimento pleno e efetivo da finalidade da existência humana.
Isso porque, mesmo sem o saber, os animais cumprem o seu destino, conforme lhes é imposto, pelas operações sutis da natureza, o imperioso e equacionador direcionamento das forças instintivas, em suas ações e reações; já o homem é compelido a tentar atingir a sua finalidade, atrelado, todavia, a uma ancestral necessidade de elucidação conceituação, em todas as suas ações e deliberações no mundo, e sempre com a mediação de outros mais experientes na caminhada rumo ao estado de humanidade.
Entretanto, a educação é, na verdade, uma arte cuja prática é aperfeiçoada somente após várias gerações.
Apesar disso, é de seu interior que o homem colhe, em verdade, a sua felicidade ou o seu extremo oposto. Assim, tornar-se melhor ou criar em si a moralidade é a grande missão humana. E, justamente, a educação, o seu mais árduo problema.
Mas, então, a educação do indivíduo deve imitar a cultura herdada de gerações anteriores?
Em verdade, não se deve educar tendo como parâmetro o estado atual da espécie humana, mas segundo a idéia e um estado futuro bem melhor.
Ao contrário de educar as crianças para o mundo atual, mergulhado na mais indiscutível corruptabilidade, dever-se-iam ser educadas de tal forma a possibilitar um estado melhor no futuro.
Esse projeto deve ser de cunho cosmopolita, mas sem que, com isso, permita-se ao bem geral vir em prejuízo do particular.
A boa educação é a causa de todo o bem deste mundo.
E a quem é dada a tarefa de melhorar o mundo? Dos governantes ou dos governados? E estes últimos devem se aperfeiçoar por si mesmos, indo ao encontro dos esforços dos bons governantes?
Se tal iniciativa deve partir dos governantes, decerto, deve-se ter em conta: “uma árvore que permanece isolada no meio do campo não cresce direito e expande grandes galhos”[2], pois “aquela que cresce no meio de uma floresta cresce ereta por causa da resistência que lhe opõem as outras árvores, e, assim, busca por cima o ar e o Sol”[3]. “Não se pode esperar que o bem venha do alto, a não ser no caso em que lá a educação seja primorosa”[4].
Pessoas competentes e bem formadas deveriam, então, dirigir as escolas. Muito embora, os poderosos considerem seu povo como animais a serem multiplicados, no máximo, com habilidades suficientes para a sua apropriada utilização a serviço dos desígnios governamentais.
Com a educação, busca-se ser disciplinado e tornar-se culto, prudente e moral. Além disso, busca-se também “ser ou treinado, disciplinado, instruído, mecanicamente, ou ser, em verdade, ilustrado”[5].
De preferência, e isto desde a infância, deve-se buscar aprender a pensar e não, meramente, o treinamento.
Ademais, através da educação, que se odeie o vício pelo próprio vício e não pela proibição imposta por Deus, ou porque assim Ele o ordene.
Afinal, como fazer de um homem feliz, sem que este seja também, indissociavelmente, moral e sábio?
E qual deve ser a duração da educação, senão até que seja alcançado o auto-domínio? Ou até que nos tornemos pais ou mães, tornando-nos, em conseqüência, educadores?
Por fim, conciliar submissão ao constrangimento das leis com o exercício da liberdade é o maior problema da educação. Se tal constrangimento é necessário, como cultivar a liberdade? Por ser difícil o bastar-se a si mesmo, é forçoso suportar privações e tornar-se independente.
Em suma, a educação consiste na cultura escolástica (habilidade); na formação pragmática (prudência) e no cultivo da moral (moralidade). É uma construção, um processo, no qual, cada fase, cada peculiar característica, insere-se em sua respectiva e adequada idade, com o passar dos anos. Aliás, como Kant mesmo escreveu, ao final da introdução: “mostrar-se hábil, prudente, paciente, sem astúcia como um adulto, durante a infância, vale tão pouco como a sensibilidade infantil na idade madura”[6].






BIBLIOGRAFIA


KANT, Immanuel. Sobre a Pedagogia - Introdução. Trad. Francisco Cock Fontanella. Piracicaba: Ed. UNIMEP, pp. 11-36.
[1] KANT, Immanuel. Sobre a Pedagogia - Introdução. Trad. Francisco Cock Fontanella. Piracicaba: Ed. UNIMEP, p. 13.

[2] KANT, Immanuel. Sobre a Pedagogia - Introdução. Trad. Francisco Cock Fontanella. Piracicaba: Ed. UNIMEP, pp. 23-24.
[3] Idem, p. 24.
[4] Idem.
[5] Idem, p. 27.
[6] KANT, Immanuel. Sobre a Pedagogia - Introdução. Trad. Francisco Cock Fontanella. Piracicaba: Ed. UNIMEP, p. 36.
Jorge Pi